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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Época da caça à gorda

Porque é que toda a gente subitamente se lembra da existência de promenades nesta altura do ano? Tudo bem: acho ótimo que frequentem as promenades. Nada contra. Mas a questão aqui é: elas estiveram lá o ano todo – que raio de pessoas são vocês, que só agora se lembraram delas? Ontem, ao final da tarde, mal se conseguiam ver os semáforos, tantas eram as gordas a circular pelas passadeiras. E isto, claro está, afeta o tráfego automóvel. Não é bom para o planeta haverem tantas gordas a passear as banhas à mesma hora, e no mesmo sítio. É daquelas coisas que afeta o aquecimento global e provoca as chuvas ácidas.

Mas este é um fenómeno que ocorre a nível mundial. Aliás, se muita mais gente se apercebe disto, abrem uma época da caça à gorda, tal é a afluência desta espécie em regiões específicas do planeta (leia-se: promenades). E, aparentemente, gorda que é gorda, usa leggings floridos para correr, consequentemente cegando todo o universo em seu redor, com uma visão absolutamente aterrorizante, traumática e causadora de profundas perturbações psicológicas.

Gosto particularmente de ver aquela malta que vai correr para a promenade e, após vinte minutos, se senta numa esplanada e pede um crepe com nutella e uma coca-cola com gelo, como recompensa pelo seu esforço durante, precisamente, mil e duzentos segundos consecutivos.

– É pá, sou mesmo bom! Perdi 50 calorias a correr durante vinte minutos, e depois, para celebrar, fui consumir 600 calorias na esplanada. Já me sinto mais magro!

Só para esclarecer: sim, acabo de descrever pormenorizadamente, e com elevado rigor científico, as minhas idas esporádicas à promenade. Não me julguem.

Mas, falando agora com alguma seriedade: será que as gordas só se lembram que estão gordas pela altura do verão? É que, ou muito me engano, ou as banhas – durante o resto do ano – continuam lá. Como é possível não terem reparado? Que não tenham reparado naquela borbulha que vos apareceu na bochecha esquerda, eu entendo. Mas como é possível não repararem em algo que vos impede de observar os vossos próprios dedos dos pés? Algo aqui está muito mal, caras amigas.

E ainda há aqui mais uma situação que me aflige. O que é que a mãe de uma gorda lhe responde, quando esta pergunta se é bonita? É que o típico “o importante é ter saúde” nem se pode aplicar nesta situação, devido ao colesterol e à glicémia, e a tudo o resto. Que aborrecimento. Mas, vá, agora vou para a rua correr um bocado… porque acho que a carrinha dos gelados já vai ao fundo da rua e tenho de me apressar para conseguir apanhá-la.

Já agora: acho que perdi o meu iPhone 5 em lugar indeterminado. Se alguém encontrar um com uma maçã meia comida na parte de trás, é meu.

domingo, 2 de junho de 2013

Bóbi, busca!

Sempre nutri uma grande admiração por aqueles donos que conseguem ensinar os cães a irem buscar coisas que eles próprios (os donos) atiram. Uma vez tentei ensinar o meu cão a fazer o mesmo, mas a coisa não correu bem. Felizmente ou infelizmente, a criatura tem um feitio que é tal e qual o meu:

– O quê?! Ir buscar coisas que foste TU a atirar? Não vás lá, para quê! Ai a minha vida! Levanta mas é o rabo do sofá, ó gordo! Faz-te à vida!

Eu até percebo o ponto de vista do meu cão; sim, porque – se eu estivesse na sua posição – também não ia. Era o que mais faltava. Não foste tu que atiraste a bola? Pois. Então vai lá buscar!

A sociedade contemporânea olha para os cães como os nossos antepassados olhavam para o comércio de escravos africanos. De uma forma, até, um tanto sádica. Não há nada de inocente no ato de atirar uma bola para muito longe, com o intuito de posteriormente obrigarmos um outro alguém a ir buscá-la por nós. E o mais grave é que as pessoas encaram esta atividade como um momento de divertimento familiar; é daquelas coisas que entra naqueles grandes álbuns de família, que as nossas tias nos mostram de cada vez que vamos lá a casa almoçar.

Voltando à analogia do comércio de escravos, vejamos o lado positivo: ao menos os cães entram nos álbuns de fotografias, não é? Já os escravos africanos… pois. Ora então não se queixem, cães! Ao menos são escravos com privilégios. E, com sorte, o vosso dono até vos oferece biscoitos. Qual é o escravo africano que se pode orgulhar de já ter recebido um biscoito, e de o terem chamado de “lindo menino”?

Outra coisa que nunca entendi nos cães, é a forma como marcam o território. Sim, eu entendo que queiram mostrar a toda a gente que determinado sítio lhes pertence, mas porquê aquele típico ritual: cheirar, levantar a pata, fazer chichi, cheirar de novo e ir embora? Porque não: espalhar migalhas de pão pelo sítio a marcar, ao estilo de Hansel e Gretel? Ou deixar lá uma bandeirola branca, como fazem aqueles alpinistas que sobem a montanhas muito altas? Sempre era mais higiénico. Fica aqui a sugestão, ao universo canino que me lê.

Então e aquelas pessoas que compram roupa para os cães e andam com eles pela rua como se estivessem a desfilar num cortejo alegórico? Ainda há dias me deparei com um Chihuahua que empregava um vestido cor-de-rosa com folhos. Se se tratasse de um individuo do sexo feminino: tudo bem. Se bem que continuava a ser trágico e simplesmente errado. Mas o animal tinha pilinha! Isto é um atentado à sexualidade daquele cão. Que fêmea é que quer praticar rituais de acasalamento com um macho de vestido cor-de-rosa? Nenhuma Chihuahua-fêmea está disposta a estabelecer matrimónio com um Chihuahua-bicha para, anos depois, o apanhar na cama com outro Chihuahua-bicha com um laço amarelo nas orelhas. E é assim que surgem as chihuahuódepressões.

Trágico: deveras trágico.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma girafa de madeira roubou-me as meias

O que fazer quando estamos a ser perseguidos por um preto (perdão: indivíduo de raça negra) que nos tenta convencer, incansavelmente, a comprar óculos de sol e girafas esculpidas em madeira? Ora, em primeiro lugar: com que propósito iria eu comprar uma girafa de madeira? Pergunto-me se haverá realmente alguém a comprar aquilo. É um assunto que me intriga. Qual será a finalidade de uma girafa esculpida em madeira nos arredores de Zimbabué? Se eu tivesse uma girafa de estimação, suponho que poderia servir-lhe de, sei lá, ornamento para a coleira ou, até, como peça de decoração de habitat. Mas aqui está o problema: é que eu não tenho girafas de estimação. O meu pai não deixa.

Aliás: o meu vizinho Alberto é o ser que mais se aproxima da definição de girafa, tendo em consideração o pescoço estupidamente grande que tem. Mas não me parece, de todo, adequado, oferecer-lhe uma girafa de madeira. O senhor poderia levar a mal. E, além do mais, ele nunca me ofereceu a mim uma joaninha esculpida em madeira (tendo em conta que me chamo Joana, parece-me uma falha tremenda da parte dele), porque é que eu haveria de lhe oferecer uma girafa? Caro amigo: a vida não está fácil para ninguém. Se quer uma girafa esculpida em madeira, então compre-a você!

Depois há aquele senhor que passa os dias a vender meias na rua abaixo da minha escola. Não há um único dia em que eu passe por ele e não o oiça a gritar: Meias! Meias! Olha as meias! Três pares por cinco euros! – isto na altura até me pareceu um bom negócio, devo confessar. Era uma profissão a que eu era capaz de me dedicar: à venda de meias. Acho que tinha futuro. Quais são os pais que não sonham ver os filhos como futuros vendedores e vendedoras de meias?

O meu interesse por esta profissão fez-me levar a cabo uma investigação aprofundada na área da compra e venda de meias. Descobri, assim, que o senhor das meias vende marcas chiquérrimas como a Adido, a Niko, a Pumi e a Reeboka. Quem nunca sonhou com umas meias da Niko? Bem que me estavam a fazer falta umas, já que as minhas desaparecem sempre misteriosamente durante a noite. Vou para a cama com elas? Sim. Quando acordo elas ainda estão lá? Negativo. Será que a atração gravítica da Terra faz com que as minhas meias desapareçam em regime noturno, para os arredores galácticos, e orbitem em redor do planeta?

Deixo-vos com essa reflexão. Agora permitam-me que vá comer uma lata de leite condensado às colheradas. Caso eu não regresse na semana que vem, é porque faleci devido à elevada concentração de açúcar na minha corrente sanguínea.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

É o costume, menina?

Sou uma pessoa de rotinas: vou sempre ao mesmo café, peço sempre a mesma coisa e percorro sempre o mesmo trajeto. Ah! Não é tão bom quando chegamos ao “nosso” café às oito e dez da manhã e nos deparamos com um garoto escuro, uma queijada e uma pastilha elástica Gorila em cima do balcão?

– É o costume, menina?

Subitamente, a minha ida ao café perde toda a magia. Porquê? Porque tenho a clara sensação de que, se contrariar a minha rotina, a senhora do café me vai julgar. Já imaginaram a tragédia que seria pedir um pastel de nata em vez de uma queijada? Ou uma pastilha elástica de morango em vez do habitual Gorila de menta? Aposto que, passados vinte minutos, a senhora do café já me teria arruinado por completo a reputação naquele estabelecimento. A minha relação com os frequentadores habituais daquele espaço (leais aos seus pedidos) nunca mais seria a mesma. Eu deixaria de ser respeitada. Passaria a ocupar o último lugar da cadeia alimentar daquele reino. Todos os animais me olhariam de lado. (Bem… chega de Rei Leão para ti, Joana.)

– Ui, olha para aquela galdéria… ouviste dizer que ela ontem de manhã pediu um pastel de nata? Foi a Geraldina, a senhora da mesa catorze, que me contou. Mas quem é que a porcalhona pensa que é? Traidora! Arruaceira! Herege!

Esta situação hipotética aflige-me profundamente. Depois ainda há aqueles dias em que não vou ao café e em que, no dia seguinte, sou confrontada com essa situação.

– Ah, bom dia, menina. Não a vi por aqui ontem… esteve doente?

Agora, para além de ter de justificar as faltas que por vezes dou, na escola, também tenho de justificar as faltas que dou no café. Será que no meu café também têm um Livro do Ponto onde assinalam as faltas dos clientes? E será que a única maneira de as justificar também é com um atestado médico ou com uma declaração dos pais, por escrito? E o limite de faltas, qual é? Qualquer dia, a senhora do café liga aos meus pais e diz-lhes que fui banida daquele estabelecimento, por excessividade de faltas. Ou então chama-me ao gabinete do gerente, para me pôr a lavar pratos, de castigo.

O que vale é que no meu café não mandam trabalhos de casa e também não temos apresentações orais nem exames. Se bem que, se o Crato se lembra de expandir as suas medidas ditatoriais na Educação para a Restauração, estamos todos tramados. Passarão, assim, a existir exames quinzenais que envolverão a degustação de empanadas e identificação dos constituintes de um Compal manga-laranja embalado na freguesia de Linda-a-Velha.

Senhoras e senhores, a isto chama-se: coffeebullying.