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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sou o noivo do Dr. Clementino

As caras desesperadas. As revistas de há dois anos. O corredor mal iluminado. Os quadros semiurbanos… Sim, isto até podia ser uma música do Pedro Abrunhosa, mas para isso eu precisava de uns óculos de sol, não é? Eu podia simplesmente ir buscá-los e criar aqui um ambiente musical consideravelmente entretido, mas não me parece adequado deixar o leitor à espera. Portanto: deixemos o meu momento de glória musical para outra altura.

Coloco-vos agora uma questão, que é a seguinte: quando é que os médicos estabeleceram esta estranha analogia com a espécie feminina em dia de matrimónio?

A típica história da noiva que chega atrasada? Dessa já tinha ouvido falar, tudo bem. Mas tendo em conta que, quando (e se) me casar, desempenharei o papel de noiva – e não de noivo –, estamos bem (supõe-se que não terei de esperar por seja quem for).

A minha dúvida é: mas por acaso eu e o meu médico estabelecemos alguma relação de matrimónio em que concordámos que eu desempenharia o papel de noivo? Acho que há aqui uma clara confusão. É que eu, legalmente, nem tenho idade para casar! (E quando casar, espero que não me levem a mal, gostaria de ser a noiva – e não o noivo.) Eu até poderia pôr a hipótese de o ter feito, sei lá, em Las Vegas… segundo as estatísticas, realiza-se um casamento de cinco em cinco minutos. Mas não me parece. Os meus pais nem me deixam ir ao supermercado comprar legumes sozinha (talvez porque confundo alfaces com couves, e pepinos com courgettes); não me parece que me autorizassem a ir a Las Vegas com o propósito de me casar com o meu médico de 52 anos, casado e com duas filhas. Ou seja: agora levanta-se ainda mais uma questão que me perturba o sono: serei eu a amante do meu médico de 52 anos?

Mas porquê esta teoria do matrimónio, Joana? – perguntar-me-á o estimado leitor. Ora, não sei se é só a mim que isto acontece, mas não há uma única vez em que eu marque uma consulta e o médico chegue a horas. Marquei consulta para as 15h? Muito bem: então, se estiver num dia de sorte, pode ser que às 17h já tenha sido atendida. Por alguma razão, sinto que sou o noivo neste estranho relacionamento. Não admira que me divorcie, em média, três vezes por ano! É de tremendo mau gosto deixar-me à espera durante tanto tempo – não se faz.

Como se já não bastasse ficar toda uma tarde à espera da “noiva”, ainda tenho de o fazer num corredor mal iluminado, com uma velhota ranhosa a tossir para cima de mim, e tendo como entretenimento nada mais que revistas de há dois anos atrás (isto para não mencionar aquele terrível “cheiro a hospital”). E depois admiram-se com a taxa de divórcios em Portugal.

Aposto que se vocês – médicos e médicas deste mundo – começassem a chegar a horas às consultas, veríamos a percentagem de casamentos bem-sucedidos a sofrer um aumento abrupto. Vá, seus coraçõezinhos de manteiga… vão lá estudar a molécula de hemoglobina e deixem os casamentos em Las Vegas para quem tem tempo para isso. (E ai de si, Dr. Clementino, se não chega a horas à consulta que tenho marcada para amanhã à tarde. Sim: pode considerar isto uma ameaça.)

domingo, 14 de abril de 2013

Espero que sejam literalmente engolidos por um hipopótamo

Podia falar-vos sobre como derivar uma função logarítmica, ou até explicar-vos a nomenclatura dos alcanos, dos alcenos e dos alcinos, mas não me sinto bem a massacrar-vos os neurónios, nem vos desejo assim tanto mal (ai, que sou tão fofa). Portanto hoje decidi falar: não de Matemática, não de Química, mas sim de Português. Sim, sim: de Português.

- Mas, ó Joana, disso já todos sabemos. Tenho o dobro da tua idade, minha menina! Sabes há quantos anos já falo português?!

Pelos vistos não há anos suficientes.

Considero particularmente trágico que haja por aí gente a desconhecer por completo o significado da palavra “literalmente” – algo “à letra”, que aconteceu na realidade. Eu sei que estamos em crise (juro que é verdade: foi o senhor do telejornal da SIC que me disse), mas tenho de solicitar aos não-gramaticalmente-entendidos que, ao invés de adquirirem comida e outras coisas que não cultivam em nada a inteligência, comprem, por sua vez, um dicionário. De uma vez por todas: se dizem que “morreram literalmente”, das duas, uma: ou a teoria de que os zombies vão dominar a Terra está correta, ou então a vossa gramática é que anda toda trocada. Eu aposto na segunda hipótese, apesar de a ideia dos zombies dominarem a Terra ser bem mais empolgante.

Hoje vou ensinar-vos uma palavra nova: figurativamente. E cá têm mais uma: metaforicamente. Um piano pode cair-vos metaforicamente em cima da cabeça. E figurativamente também. Então e literalmente? Literalmente também pode… só que dói um bocadinho mais. Aleija. Faz dói-dói. Estamos entendidos?

Ainda ontem alguém me dizia: caguei literalmente para ele. Não me levem a mal, mas eu li isto antes da hora de almoço. Como devem imaginar, não é uma imagem bonita de se ter na cabeça minutos antes de se ir comer puré de batata com carne moída. Na verdade, não é uma imagem bonita de se ter na cabeça seja em que altura for. A todos os que alguma vez me disseram isto: desejo que sejam literalmente engolidos por um hipopótamo. E é só o que tenho a dizer.

E ainda diz a minha professora de Português que eu não entendo nada de gramática. Com certeza não andamos a conviver com as mesmas pessoas. Os meus próprios pais padecem deste défice linguístico! (A teoria da adoção faz cada vez mais sentido.) Ainda no outro dia estavam eles a dizer aos amigos que ah, e tal, a minha filha é literalmente uma terrorista. Ora cá está uma novidade. Sou uma terrorista! Bom, espero ser ao menos uma daquelas terroristas como deve ser: que faz atentados e deita prédios enormes abaixo, e tal. Será que já apareci na televisão? Oh! E será que sou procurada internacionalmente pelas autoridades?! Deverei estar preocupada? Bom… parece-me que a única solução é deixar de ir à escola. É o mais seguro. (Não concordas, papá?)

Pronto, era só isto. Agora parem lá com isso. E é bom que estejam todos literalmente cheios de medo de serem engolidos por um hipopótamo, caso vejam coisas literais onde elas não existem. Até à próxima aula de Português. (Acho que sou capaz de ter futuro para a coisa.)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Apolinário usa cuecas da Calvin Klein

Há não muitos anos atrás, considerava-me rebelde quando ficava acordada até às onze da noite a ver o Canal Panda sem os meus pais saberem. Ou quando cortava o cabelo às minhas Barbies e lhes arrancava membros (suspeito que há fortes probabilidades de eu um dia vir a ser uma temível sociopata). No entanto, hoje em dia, estes fatores já não contribuem para o meu estatuto de “pessoa razoavelmente rebelde”.

Como boa profissional que sou, andei a investigar esta questão da rebeldia nos jovens. Consultei a opinião de vários psicólogos, e grande parte deles afirma que a rebeldia na adolescência se deve a uma procura de uma espécie de espiritualidade dentro deles – jovens. Posso não ser licenciada em Psicologia (louvado seja Deus), mas a mim parece-me que a frase: “são rebeldes porque são estúpidos” foi terrivelmente mal escrita por parte destes psicólogos.

Vejamos o exemplo prático de Apolinário, um jovem alentejano de dezasseis anos. Apolinário foi nascido e criado no seio de uma família com bons costumes. Ia à escola, praticava desporto, ia à missa todos os domingos e era um miúdo bem-educado. Sabia estar sentado à mesa e usar a faca e o garfo corretamente. Não arrastava a cadeira quando se sentava, e pedia sempre licença para se levantar. Mas houve um dia em que Apolinário deixou de ser o Apolinário que a sua família até então conhecia.

Apolinário, a 18 de fevereiro de 2010, saiu da escola ao final da tarde, e regressou a casa de autocarro, como fazia sempre. No entanto, ao chegar junto de seus pais, era facilmente observável que Apolinário não era o mesmo. Apolinário estava mudado. Chegou a casa com todo um léxico desconhecido por parte dos restantes familiares e proferia palavras que seus pais nem tinham a certeza de serem aceites pela Bíblia ou pela comunidade cristã. As suas calças novas da Levis tinham sido brutalmente rasgadas e o seu cinto tinha desaparecido, deixando-lhe os boxers cinza da Calvin Klein à mostra. Os seus progenitores ainda ponderaram a hipótese de ter ocorrido um assalto a caminho de casa, mas quando confrontaram Apolinário com esta possibilidade, este apenas respondeu: Yó, niggas, bazem. Yolo, swag e vida loka, bitches! – como se já não bastasse o facto de trazer as calças ao nível dos joelhos e de se chamar Apolinário, o miúdo também falava como uma pessoa possuidora de uma deficiência mental… pobre criança.

A verdade é que todos temos um Apolinário dentro de nós (metaforicamente falando, claro). A única diferença é que nós não usamos cuecas da Calvin Klein, que não há dinheiro para isso. Mas, caros psicólogos, permitam-me que vos diga que essa teoria da procura da espiritualidade faz tanto sentido como um esquimó a escovar os dentes a um mamute enquanto este faz o pino e corta as unhas dos pés (perdão: patas) ao som do mais recente álbum do Justin Bieber.

Sim, Joana Camacho também se inclui neste fatídico grupo: “os adolescentes”. E Joana Camacho é igualmente estúpida quanto qualquer um deles. Anda com as cuecas de fora, sim. Mas exclusivamente porque não é particular apreciadora de cintos. Qualquer semelhança com uma tentativa de rebeldia é mera coincidência.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Não nutro qualquer tipo de afeto pela minha prima

Deduzo que por esta altura já todos terão chegado à conclusão de que hoje vos vou falar sobre… a minha prima – essa infame criatura. Toda a minha família é um caso curioso, mas a minha prima ultrapassa de longe o limiar da curiosidade (e não o digo no sentido apreciativo da coisa). O irónico é que… eu nem tenho primas. Imagino que agora esteja razoavelmente baralhado. Adoraria poder reconfortá-lo e dizer-lhe que vou resolver o seu problema – mas a verdade é que não vou. Lamento.

Apesar de a minha árvore genealógica me dizer claramente que não tenho primos, a Mãe Natureza insiste em contrariar a genética e os dados científicos, e presenteou-me com uma tal de Prima Vera. Por norma, eu ficaria extremamente feliz por ter um novo membro na minha família, mas não é este o caso. É que esta tal de Vera que se afirma minha prima – em primeiro grau e tudo, diz ela – não é flor que se cheire (literalmente).

Em primeiro lugar, anda desaparecida durante nove meses, todos os anos. E depois só dá sinais de vida nos restantes três – sempre na mesma altura. No primeiro ano em que isto aconteceu, pensei que ela tivesse, finalmente, ganho algum juízo: talvez tivesse encontrado o homem perfeito e resolvesse ter um filho. Quem sabe tinha decidido passar aqueles nove meses de gestação num qualquer lugar longínquo e paradisíaco. Pareceu-me compreensível na altura. Se bem que não lhe fazia mal nenhum avisar os familiares. Afinal de contas… a Mãe Natureza criou-nos uma relação fictícia de consanguinidade para alguma coisa, não é? Haja o mínimo de respeitinho pela falsa consanguinidade que nos une, querida prima.

Seja como for, até lhe tinha comprado um babeiro engraçadíssimo, com a cara do Pateta e tudo. Era uma fofura. Mas não é que a Vera regressa passados os nove meses, sem homem perfeito, sem criança, e sem justificação alguma? E a coisa foi-se repetindo: estava connosco três meses, depois desaparecia nos restantes nove. A teoria da gravidez foi rapidamente excluída. Aliás, eu sempre soube que a minha prima Vera era uma galdéria, mas não a esse ponto.

E como se isto já não bastasse, de cada vez que nos presentava com a sua presença, trazia com ela gripes, constipações, alergias e rinite alérgica. Que raio de prima é que nos oferece muco como souvenir? Se eu estivesse fora durante nove meses, oferecia à família, na pior das hipóteses, uma daquelas camisolas que dizem: I love [inserir aqui o nome de uma cidade qualquer] e que se vendem a três euros no aeroporto. Ou meias, sei lá. Toda a gente precisa de meias. Agora de ranho é que não!

Todos estes fatores fazem da Primavera uma estação detestável. Com ela, vem o pólen das flores, o spray nasal e as despesas acumuladas em pacotes de lenços. Querida prima: por favor dá ouvidos à genética e não voltes… 

… a não ser que eu precise de um rim e tu sejas compatível.