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domingo, 14 de abril de 2013

Espero que sejam literalmente engolidos por um hipopótamo

Podia falar-vos sobre como derivar uma função logarítmica, ou até explicar-vos a nomenclatura dos alcanos, dos alcenos e dos alcinos, mas não me sinto bem a massacrar-vos os neurónios, nem vos desejo assim tanto mal (ai, que sou tão fofa). Portanto hoje decidi falar: não de Matemática, não de Química, mas sim de Português. Sim, sim: de Português.

- Mas, ó Joana, disso já todos sabemos. Tenho o dobro da tua idade, minha menina! Sabes há quantos anos já falo português?!

Pelos vistos não há anos suficientes.

Considero particularmente trágico que haja por aí gente a desconhecer por completo o significado da palavra “literalmente” – algo “à letra”, que aconteceu na realidade. Eu sei que estamos em crise (juro que é verdade: foi o senhor do telejornal da SIC que me disse), mas tenho de solicitar aos não-gramaticalmente-entendidos que, ao invés de adquirirem comida e outras coisas que não cultivam em nada a inteligência, comprem, por sua vez, um dicionário. De uma vez por todas: se dizem que “morreram literalmente”, das duas, uma: ou a teoria de que os zombies vão dominar a Terra está correta, ou então a vossa gramática é que anda toda trocada. Eu aposto na segunda hipótese, apesar de a ideia dos zombies dominarem a Terra ser bem mais empolgante.

Hoje vou ensinar-vos uma palavra nova: figurativamente. E cá têm mais uma: metaforicamente. Um piano pode cair-vos metaforicamente em cima da cabeça. E figurativamente também. Então e literalmente? Literalmente também pode… só que dói um bocadinho mais. Aleija. Faz dói-dói. Estamos entendidos?

Ainda ontem alguém me dizia: caguei literalmente para ele. Não me levem a mal, mas eu li isto antes da hora de almoço. Como devem imaginar, não é uma imagem bonita de se ter na cabeça minutos antes de se ir comer puré de batata com carne moída. Na verdade, não é uma imagem bonita de se ter na cabeça seja em que altura for. A todos os que alguma vez me disseram isto: desejo que sejam literalmente engolidos por um hipopótamo. E é só o que tenho a dizer.

E ainda diz a minha professora de Português que eu não entendo nada de gramática. Com certeza não andamos a conviver com as mesmas pessoas. Os meus próprios pais padecem deste défice linguístico! (A teoria da adoção faz cada vez mais sentido.) Ainda no outro dia estavam eles a dizer aos amigos que ah, e tal, a minha filha é literalmente uma terrorista. Ora cá está uma novidade. Sou uma terrorista! Bom, espero ser ao menos uma daquelas terroristas como deve ser: que faz atentados e deita prédios enormes abaixo, e tal. Será que já apareci na televisão? Oh! E será que sou procurada internacionalmente pelas autoridades?! Deverei estar preocupada? Bom… parece-me que a única solução é deixar de ir à escola. É o mais seguro. (Não concordas, papá?)

Pronto, era só isto. Agora parem lá com isso. E é bom que estejam todos literalmente cheios de medo de serem engolidos por um hipopótamo, caso vejam coisas literais onde elas não existem. Até à próxima aula de Português. (Acho que sou capaz de ter futuro para a coisa.)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Apolinário usa cuecas da Calvin Klein

Há não muitos anos atrás, considerava-me rebelde quando ficava acordada até às onze da noite a ver o Canal Panda sem os meus pais saberem. Ou quando cortava o cabelo às minhas Barbies e lhes arrancava membros (suspeito que há fortes probabilidades de eu um dia vir a ser uma temível sociopata). No entanto, hoje em dia, estes fatores já não contribuem para o meu estatuto de “pessoa razoavelmente rebelde”.

Como boa profissional que sou, andei a investigar esta questão da rebeldia nos jovens. Consultei a opinião de vários psicólogos, e grande parte deles afirma que a rebeldia na adolescência se deve a uma procura de uma espécie de espiritualidade dentro deles – jovens. Posso não ser licenciada em Psicologia (louvado seja Deus), mas a mim parece-me que a frase: “são rebeldes porque são estúpidos” foi terrivelmente mal escrita por parte destes psicólogos.

Vejamos o exemplo prático de Apolinário, um jovem alentejano de dezasseis anos. Apolinário foi nascido e criado no seio de uma família com bons costumes. Ia à escola, praticava desporto, ia à missa todos os domingos e era um miúdo bem-educado. Sabia estar sentado à mesa e usar a faca e o garfo corretamente. Não arrastava a cadeira quando se sentava, e pedia sempre licença para se levantar. Mas houve um dia em que Apolinário deixou de ser o Apolinário que a sua família até então conhecia.

Apolinário, a 18 de fevereiro de 2010, saiu da escola ao final da tarde, e regressou a casa de autocarro, como fazia sempre. No entanto, ao chegar junto de seus pais, era facilmente observável que Apolinário não era o mesmo. Apolinário estava mudado. Chegou a casa com todo um léxico desconhecido por parte dos restantes familiares e proferia palavras que seus pais nem tinham a certeza de serem aceites pela Bíblia ou pela comunidade cristã. As suas calças novas da Levis tinham sido brutalmente rasgadas e o seu cinto tinha desaparecido, deixando-lhe os boxers cinza da Calvin Klein à mostra. Os seus progenitores ainda ponderaram a hipótese de ter ocorrido um assalto a caminho de casa, mas quando confrontaram Apolinário com esta possibilidade, este apenas respondeu: Yó, niggas, bazem. Yolo, swag e vida loka, bitches! – como se já não bastasse o facto de trazer as calças ao nível dos joelhos e de se chamar Apolinário, o miúdo também falava como uma pessoa possuidora de uma deficiência mental… pobre criança.

A verdade é que todos temos um Apolinário dentro de nós (metaforicamente falando, claro). A única diferença é que nós não usamos cuecas da Calvin Klein, que não há dinheiro para isso. Mas, caros psicólogos, permitam-me que vos diga que essa teoria da procura da espiritualidade faz tanto sentido como um esquimó a escovar os dentes a um mamute enquanto este faz o pino e corta as unhas dos pés (perdão: patas) ao som do mais recente álbum do Justin Bieber.

Sim, Joana Camacho também se inclui neste fatídico grupo: “os adolescentes”. E Joana Camacho é igualmente estúpida quanto qualquer um deles. Anda com as cuecas de fora, sim. Mas exclusivamente porque não é particular apreciadora de cintos. Qualquer semelhança com uma tentativa de rebeldia é mera coincidência.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Não nutro qualquer tipo de afeto pela minha prima

Deduzo que por esta altura já todos terão chegado à conclusão de que hoje vos vou falar sobre… a minha prima – essa infame criatura. Toda a minha família é um caso curioso, mas a minha prima ultrapassa de longe o limiar da curiosidade (e não o digo no sentido apreciativo da coisa). O irónico é que… eu nem tenho primas. Imagino que agora esteja razoavelmente baralhado. Adoraria poder reconfortá-lo e dizer-lhe que vou resolver o seu problema – mas a verdade é que não vou. Lamento.

Apesar de a minha árvore genealógica me dizer claramente que não tenho primos, a Mãe Natureza insiste em contrariar a genética e os dados científicos, e presenteou-me com uma tal de Prima Vera. Por norma, eu ficaria extremamente feliz por ter um novo membro na minha família, mas não é este o caso. É que esta tal de Vera que se afirma minha prima – em primeiro grau e tudo, diz ela – não é flor que se cheire (literalmente).

Em primeiro lugar, anda desaparecida durante nove meses, todos os anos. E depois só dá sinais de vida nos restantes três – sempre na mesma altura. No primeiro ano em que isto aconteceu, pensei que ela tivesse, finalmente, ganho algum juízo: talvez tivesse encontrado o homem perfeito e resolvesse ter um filho. Quem sabe tinha decidido passar aqueles nove meses de gestação num qualquer lugar longínquo e paradisíaco. Pareceu-me compreensível na altura. Se bem que não lhe fazia mal nenhum avisar os familiares. Afinal de contas… a Mãe Natureza criou-nos uma relação fictícia de consanguinidade para alguma coisa, não é? Haja o mínimo de respeitinho pela falsa consanguinidade que nos une, querida prima.

Seja como for, até lhe tinha comprado um babeiro engraçadíssimo, com a cara do Pateta e tudo. Era uma fofura. Mas não é que a Vera regressa passados os nove meses, sem homem perfeito, sem criança, e sem justificação alguma? E a coisa foi-se repetindo: estava connosco três meses, depois desaparecia nos restantes nove. A teoria da gravidez foi rapidamente excluída. Aliás, eu sempre soube que a minha prima Vera era uma galdéria, mas não a esse ponto.

E como se isto já não bastasse, de cada vez que nos presentava com a sua presença, trazia com ela gripes, constipações, alergias e rinite alérgica. Que raio de prima é que nos oferece muco como souvenir? Se eu estivesse fora durante nove meses, oferecia à família, na pior das hipóteses, uma daquelas camisolas que dizem: I love [inserir aqui o nome de uma cidade qualquer] e que se vendem a três euros no aeroporto. Ou meias, sei lá. Toda a gente precisa de meias. Agora de ranho é que não!

Todos estes fatores fazem da Primavera uma estação detestável. Com ela, vem o pólen das flores, o spray nasal e as despesas acumuladas em pacotes de lenços. Querida prima: por favor dá ouvidos à genética e não voltes… 

… a não ser que eu precise de um rim e tu sejas compatível.

terça-feira, 26 de março de 2013

Um Toblerone fez de mim Sportinguista

Acordei com uma ideia deslumbrante para aquele que seria o melhor texto de sempre… só que depois bati com o joelho esquerdo na esquina da minha mesa-de-cabeceira e contribuí para o aumento da taxa de emigração de ideias, em Portugal. Por essa mesma razão, decidi falar-vos de futebol, já que sou uma entendida no assunto (este é aquele momento em que se riem).

Sendo filha de um homem que jogou durante anos a fio no Nacional, é professor de Educação Física e é benfiquista (pelo menos tudo indica que é mesmo ele o meu pai), o futebol é tema de ordem cá por casa. Há determinadas premissas que nós – habitantes desta casa – temos de respeitar, de modo a garantir a saúde, o bem-estar e a ausência de avantajadas dores de cabeça por parte de todos os seres que coabitam debaixo deste mesmo teto. É, por exemplo, de conhecimento geral, que aos fins-de-semana o plasma da sala está reservado única e exclusivamente para fins futebolísticos: primeiro há a Liga ZON Sagres, depois joga a 2ª Liga, segue-se a Liga de Espanha, a Liga Inglesa, a Liga Italiana e, com sorte, ainda há espaço para a Liga Alemã e para a Francesa. E ai de quem se atreva a sequer estabelecer contacto visual com o comando, ousando, ainda que por breves instantes, ponderar a hipótese de mudar de canal. Quem quer ver televisão na sala, vê Sport TV e não reclama.

O que me confunde em toda esta situação é o seguinte: imaginemos que um dado homem é do Benfica. São capazes de me explicar o porquê de passar o fim-de-semana inteiro jogado no sofá, abraçado a uma mini e a um prato de amendoins sem casca (ou de tremoços, vá), a ver todo e mais algum jogo de futebol entre equipas que possuem nomes que, por vezes, são impossíveis de pronunciar? Se é do Benfica, via só os jogos do Benfica. Mas não. Vocês – homens – comem tudo o que vos aparece à frente! No sentido metafórico e futebolístico, claro. Não desprezando os amendoins e os tremoços – aí podem interpretar a frase no sentido literal da coisa.

Sou Sportinguista e apresento-me como tal, é certo. Tomei a decisão de me tornar adepta do Sporting aos quatro anos de idade. O meu pai queria que eu fosse do Benfica; já a minha mãe estava mais inclinada para o Sporting. Porque é que ganhou a minha mãe? Simples: porque o chocolate Toblerone que ela me ofereceu era bem maior do que aquele chupa-chupa de cinco cêntimos com que o meu pai me tentou subornar. Pai, se me estás a ler, espero que tenhas aprendido que com chupa-chupas de cinco cêntimos não vais lá.

Caras pessoas que me leem: caso, por alguma razão, tencionem subornar a autora deste texto, permitam-me que vos deixe uma sugestão… chocolates. Montes e montes deles.